Corpos do rio

sábado, dezembro 17, 2011

Coração em pote frio


Coração em pote frio







   Ele era branco e tinha um cabelo escuro amarrado em forma de rabo de cavalo e com apenas dezesseis anos estava indo lutar na guerra. Ela era muito mais branca, com um cabelo muito mais escuro também era um pouco mais velha e estava morrendo. Ele sabia que talvez ela morresse nos anos que ficaria fora em batalha. A doença das princesas como é chamada, é uma doença rara que afeta somente adolescentes meninas dos treze aos dezessete no período de nevasca no extremo inverno. Não se sabe porque garotas contraem tal problema, sabe-se que é um problema emocional que delimita o físico. Ela consiste em três estágios, o primeiro: a fragilidade, em seguida: a fraqueza e a terceira: a morte. Mas não uma morte qualquer, a vitima tende a ficar fria e mais rígida que o comum, como se tornasse vidro, e vidro de fato parece.
   E foi numa tarde de ventos, neve e frio de uma quinta feira que os dois se encontraram no quarto dela, abraçados assistindo os gritos das arvores  batalhando contra vento e neve através da janela. Estava anoitecendo, e ele tinha que ir. Era a última vez que se veriam:
- Beijos, minha princesa - Disse ele beijando-a na testa pois estava muito fraca. – Espere por mim – ele se levantou.
- calma, Não vá ainda. – ela pediu – segure minha mão mais um pouco.
- Terei todo o tempo para segurar sua mão quando voltar – Ele assegurou.
- Mas talvez, eu não agüente te esperar – Ela foi hipotética – Ou talvez, nem você volte.
- Odeio seu pessimismo – trincou os dentes – Shannon, você me prometeu que vai me esperar o tempo que for preciso.
- Mas Toumas...
- Sem mas Shannon – ele estava bravo, só a imagem de um mundo sem Shannon para ele era cruel – É para sempre não é?
-Sim. Eu vou te esperar para sempre. – ela derramou uma lagrima.
- Não chore. – Limpando a lagrima do rosto dela, ele percebeu que ela tinha congelado. – Meu corpo poderá estar em batalha, mas eu de fato estarei com você. Meu coração é seu.
- E se meu corpo ir, meu coração estará aqui, esperando seu retorno, porque ele é seu e seu somente. – Ela sorriu o máximo que podia.
- vai guardá-lo em um pote? – ele brincou rindo. Queria ver ela alegre não triste.
- Sim, guardado em um pote. - ela riu ainda mais, e como aquele riso era lindo e tão bom ouvir, gostaria eu, poder ouvir novamente. – Mesmo que por ele corra o veneno. – Pena que ela nunca mais iria sorrir.
   Então, ele saiu. Em direção a guerra.
   Enquanto ele matava e via seus amigos morrer, ela adoecia mais. E quanto mais ela adoecia, mas ele sofria, mas frio seu corpo ficava e seu coração parecia sofrer. Se ele chorava, ela chorava também, a saudade e o calor entre o carinho e amor fazia muita falta para ambos.
   Um tiro, um suspiro e ela ia morrendo, seu pânico se transformava em ira e matava ainda mais, depois de um ano de guerra, depois de perdas e ganhos, de gloria e derrotas o garoto tinha virado um homem.
   Depois de três anos, ele não havia retornado, e ela adoecia pois não sentia mais ele, “poderia ele ter morrido?” pensava,”não, mesmo que tivesse, eu tenho que esperar por ele”. E em seu último ano de vida ela passou na cama estava muito debilitada, não tinha mais energia, e também não sonhava mais, muitos sonhos foram perdidos, seus desejos extintos, o que sobrava somente era o juramento.
-Chamem minha avó – Pediu ela, o que era estranho pois avó a muito tempo havia sumido.
Quando a avó havia chegado, para ela não havia muito tempo de vida e ela disse:
-Querida avó, eu não sonho mais. Mas quero que saiba que eu entendo os meus sonhos agora e também o meu fardo e aceito ele. Aceito ser quem eu sou não me recuso disso e quero morrer como devo. Porém lhe peço um favor, como minha última vontade. Me ajude colocar meu coração em um pote.
   Avó assim fez, estava alegre com sua neta e com todo o prazer fez o desejo se tornar real, o coração de Shannon agora se encontrava em um pote, e seu corpo em um caixão de vidro cheio de neve e vento ao lado do pote no mesmo estado.O coração com o veneno “maldição de princesa” estava esperando seu verdadeiro dono.
   Sete meses depois, ele havia retornado e ninguém reconhecia aquele homem com barba e rabo de cavalo comprido em sua costa. Era verão, e chegando a seu pequeno condado se dirigiu imediatamente para a casa dela, entrou no quarto e encontrou-a na cama, dentro de um caixão de vidro. Aquele homem que a muito tempo não chorava, que morte nenhuma chocava, chegou perto do caixão e limpou-o para vê-la, ai então tentou abrir mas não conseguiu,chorando se apoiou e logo depois em desespero tentou quebrar o vidro, com cabeçadas chutes e socos, mas era impossível.
-Você disse que me esperaria,você disse – Então ele viu o coração no pote que dentro do pote que nevava.Parecia mágica,não algo mais intenso que mágica, aquilo era magia.
   O coração estava congelado, com uma grossa camada de gelo cobrindo ele inteiro. Então ele abriu o pote que era igualzinho o caixão e pegou o coração com as duas mãos, o frio se manifestou em seu corpo. Mas o gelo começou a derreter e bem devagar ele sentiu o coração ficar quente e voltar pulsar em suas mãos. E ele sentia o sangue, ouvia os batimentos do coração reanimado.
- Você de fato me esperou Shannon. – seu pranto era de alegria – Não, você quer que me junte a você – O coração batendo em suas mãos lhe mostrava a direção – Minha querida, anseio me juntar a você mas como? – O sangue agora escorria em suas mãos – Não está morta, eu te sinto do meu lado aqui suas mãos estão esquentando as minhas – Ela estava passando o coração dela para ele, mas só ele via – Mas meu amor, de que me adianta ter seu coração, se não tenho você? Quero seu sorriso e risada que tanto amo, não o veneno de sua artéria do coração pulsante.
   Ele então, como um fruto, levou o coração até a boca, e deu uma mordida e em seguida começou sentir o frio, mas um frio aconchegante. Pois nele havia um sorriso que lhe dava uma sensação maravilhosa que não sentia a muito tempo, finalmente o caixão se abriu, e pode ele então se deitar ao lado dela que fora cravado novamente, porque ninguém separa o que é eterno.
E eles viverem felizes no Para sempre.


Dedicatória será longa:

Para Bruna Marestoni.

"escrevi poemas que me frustrei e rasguei por não encontrar palavras que faziam jus, outros que escrevi deixei de lado por não serem honestos, e muito outros queimei por dizer o que não deve ser dito, ”que deixe queimar”.

É difícil dizer quando você encontra alguém tão singular, tão intenso que te causa suspensão de realidade, que treme o chão, deixa seu coração na mão.
Não escrevi antes porque não achei a idéia perfeita para a inspiração perfeita, entretanto, esse é um bom começo.

         - Pequeno Bardo e Aprendiz ( Felipe Rodrigues)

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