Dona Lourdes, é extremamente católica, imagens de santos e de Jesus por toda a casa, em cima da mesinha da sala, uma bíblia, aberta com um terço no meio. Todos do bairro sabem da devoção de Dona Lourdes (ou vovó,como gosta de ser chamada, e assim será por daqui em diante) pela religião. E assim, cantava Roberto Carlos como se fosse ela mesma quem compôs as musicas do cantor, sabia todas de cor, e sorridente, se dirigiu para a cozinha,fazer o bolo para o namorado e sempre cantando, a cozinha era simples,uma mesa um pequeno armário,não tinha micro-ondas mas tinha fogão, um fogão quatro bocas e uma geladeira marrom, era espaçosa mas com poucas coisas parecia vazia,solitária,porem cheirosa e bem limpa, com perfeição como a vovó gosta.
Bolo do que, cenoura ? Abacaxi?Chocolate? Ou talvez de fubá? Fubá, um bolo seco, e do jeitinho como só vovós fazem, o melhor arroz e feijão não é de mãe, é de avó, qualquer comida de mãos cheias de vigor, firmeza, vivencia e experiência é mais saborosa, e a vovó em questão, tem ainda uma vantagem, ela já vendeu bolo nas festas de junho para ajudar a igreja, e seu bolo de fubá é o melhor da barraca,então sabendo disso, e com charme para ganhar o namoro incerto de vez, escolheu fazer de fubá.
Pegou todos os ingredientes, menos farinha, droga de farinha, não tinha farinha, ficou brava, e não tinha nenhum moleque na rua para ir comprar para ela,então,pegou sua bolsinha de dinheiro e foi caminhando devagar até a venda da esquina, com alma,brava,resmungando,mas sem fulminação, voltou logo depois, demorou alguns minutos, primeiro porque anda devagar,segundo porque falou de tricô com uma amiga, a dona Lucia,lembrou que deixou o toca discos ligado, e correu para casa, e é claro, disse para dona Lucia passar mais tarde para ir comer um pedaço do famoso bolo de fubá, ficou cansada, terá que tomar outro banho,e contra vontade, e também, contra tempo, o seu namorado estava chegando, o bolo precisa ficar pronto a tempo.
E então com toda paixão,e determinação e com muito amor, finalmente, coloca o bolo no forno para assar. Ia ficar delicioso, e acompanhado de um cafezinho preto, melhor ainda.
Trocou o disco, e colocou outro, ainda um disco do Roberto, e cantando de forma alegre esbanjando alegria, vai para mais outro banho,já estava cansada,incrível como a idade nos barra de movimentos e de liberdade corporal, aumentou o som e sempre cantando o seu amado,Roberto. Saiu do chuveiro e sentiu descansada, o bolo mais dois ou três minutinhos estaria pronto,foi até o quarto, e esborrifou seu perfume delicioso, agridoce não forte, porem não sutil, era perceptível.
Ligou o som, e já era fim de tarde, estava na hora de se acalmar, o namorado estava chegando, junto com o crepúsculo, foi até a cozinha sentou na cadeira, serviu-se de café e comeu o seu bolo de fubá,comeu muito como nunca tivera comido antes,comeu quase tudo, e percebeu que o seu bolo realmente era muito gostoso. O ultimo raio de sol se fora, e com ele o namorado finalmente chegou, bonito, terno preto denso, riscado, muito elegante, o homem branco, muito branco, cabelos grisalhos reluzentes, era frio, alto, era um senhor porem não parecia. Chegou, avassalante, porem dócil,sutil e devagar. Era frio, e com seus lábios gélidos, deu um beijo em Lourdes, pegou ela pelas mãos e levou até a cama, levou o terço dela também, o coração de Lourdes bateu rápido, depois palpitou,ela com o terço na mão fechara os olhos, e começou dividir o mesmo corpo frio do amante,e agora marido, ela se casara, e passará a eternidade do lado dele, é eterno, é puro e é simples, não há complicações, triste pois, ninguém nem os três filhos, nem os três netos, foram para a celebração, não importava, vovó estava feliz.
Para Verônica, que é uma fonte sem fim de inspiração. E também um sentimento de amor pelas minhas avós Olga e Vera.
-Pequeno Bardo e Aprendiz
“ E que na minha idade
Só a velocidade
Anda junto a mim.
Só ando sozinho
E no meu caminho
O tempo é cada vez menor... ”
- Roberto Carlos – As curvas da estrada de Santos.
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